Autoestima · 12 de outubro de 2026 · 6 min de leitura
Quando o elogio incomoda: por que pode ser tão difícil reconhecer algo bom em você?
Você recebe um elogio e imediatamente explica, diminui ou desconversa? Neste texto, vamos refletir sobre autoestima, autopercepção e o que a dificuldade de receber reconhecimento pode revelar sobre a maneira como nos enxergamos.
Neste texto
- Você recebe um elogio e, antes mesmo de conseguir aceitá-lo, explica, diminui ou devolve? Talvez valha observar o que acontece dentro de você nesse momento.
- Primeiro: observe o que você faz com o elogio
- Quando o elogio não combina com aquilo que você acredita sobre si
- “Mas eu só não quero parecer arrogante”
- E quando você aceita a crítica muito mais facilmente?
- O elogio também pode gerar pressão
- Um pequeno exercício
- Experimente apenas dizer “obrigada”
- Autoestima não é se achar incrível o tempo inteiro
- E quando perceber esse padrão não é suficiente?
- Antes de ir...
Você recebe um elogio e, antes mesmo de conseguir aceitá-lo, explica, diminui ou devolve? Talvez valha observar o que acontece dentro de você nesse momento.
Alguém diz:
“Seu trabalho ficou muito bom.”
E você responde:
“Ah, foi sorte.”
Elogiam sua roupa:
“Nossa, ficou linda em você.”
“Imagina, essa roupa é velha.”
Dizem que você fez alguma coisa muito bem:
“Nem foi tudo isso.”
Às vezes, a resposta sai tão rápido que você nem percebe.
A pessoa entrega um elogio.
E você imediatamente encontra uma maneira de devolvê-lo.
Talvez você faça uma piada.
Talvez explique por que aquilo não é verdade.
Talvez atribua o mérito a outra pessoa.
Ou talvez apenas sinta aquele desconforto estranho de não saber o que responder.
Mas por que receber algo positivo sobre nós pode ser tão difícil?
Primeiro: observe o que você faz com o elogio
Existe uma diferença entre não gostar de elogios e não conseguir sustentar aquilo que o elogio desperta.
Imagine que alguém diga:
“Você é muito competente.”
O que acontece dentro de você nos segundos seguintes?
Talvez sua mente responda:
“Se ela soubesse...”
“Eu só consegui porque tive ajuda.”
“Ela está exagerando.”
“Nem sou tudo isso.”
“Agora vão esperar isso de mim sempre.”
Ou até:
“Se eu concordar, vou parecer convencida.”
Perceba que, nesse momento, já não estamos falando apenas sobre aquilo que a outra pessoa disse.
Estamos falando sobre como aquilo encontrou a imagem que você tem de si.
Quando o elogio não combina com aquilo que você acredita sobre si
Imagine que, durante muito tempo, uma pessoa tenha construído uma percepção de si como:
“Eu nunca faço nada suficientemente bem.”
Agora alguém diz:
“Você fez um trabalho excelente.”
As duas informações não combinam muito bem.
De um lado, existe aquilo que ela já acredita sobre si.
Do outro, uma informação nova dizendo algo diferente.
E talvez seja mais fácil diminuir o elogio do que começar a questionar uma percepção sobre si que existe há muito tempo.
Isso não significa que toda pessoa que recusa elogios tenha baixa autoestima.
O comportamento pode ter significados diferentes para pessoas diferentes.
Mas ele pode ser uma pista interessante sobre a forma como você aprendeu a se enxergar.
“Mas eu só não quero parecer arrogante”
Essa frase merece atenção.
Porque algumas pessoas aprenderam que reconhecer as próprias qualidades significa se achar melhor que os outros.
Mas existe uma diferença enorme entre dizer:
“Eu reconheço que fiz um bom trabalho.”
e:
“Eu sou melhor do que todo mundo.”
Uma coisa é reconhecimento.
A outra é superioridade.
Você não precisa diminuir aquilo que faz bem para continuar sendo uma pessoa humilde.
Reconhecer uma qualidade não exige transformar essa qualidade em superioridade.
E quando você aceita a crítica muito mais facilmente?
Existe outra situação interessante.
Alguém pode fazer dez elogios.
Você esquece nove.
Mas uma pessoa faz uma crítica...
E aquela fica.
Você pensa nela depois.
Repassa a situação.
Começa a procurar evidências.
“Será que ela tem razão?”
E talvez exista uma pergunta importante aqui:
Por que algumas informações negativas sobre você encontram tão facilmente um lugar para ficar, enquanto as positivas precisam provar que são verdadeiras?
Não significa que devemos acreditar em todo elogio e rejeitar qualquer crítica.
Críticas também podem nos ajudar a rever comportamentos e perceber aspectos importantes.
A questão é observar quanto peso você oferece a cada tipo de informação.
O elogio também pode gerar pressão
Existe ainda outra possibilidade que nem sempre percebemos.
Imagine alguém dizendo:
“Você sempre resolve tudo.”
Pode parecer positivo.
Mas a pessoa que escuta talvez pense:
“Então eu não posso falhar.”
Ou:
“Agora preciso continuar correspondendo a isso.”
Um elogio sobre aparência pode provocar:
“Será que normalmente não estou bonita?”
Um elogio profissional:
“E se da próxima vez eu não conseguir?”
Um elogio sobre ser forte:
“Então preciso continuar sendo forte.”
Ou seja: às vezes, o desconforto não está exatamente em receber algo positivo.
Pode estar no significado que atribuímos àquilo.
Um pequeno exercício
Pense nos últimos elogios que você recebeu.
Agora tente lembrar:
Qual foi sua primeira reação?
Você agradeceu?
Explicou?
Negou?
Fez uma piada?
Mudou de assunto?
Devolveu imediatamente outro elogio?
Sentiu vontade de provar que a pessoa estava exagerando?
Não tente corrigir sua resposta.
Só observe.
Agora complete:
“Quando alguém reconhece algo positivo em mim, eu sinto...”
Constrangimento?
Alegria?
Desconfiança?
Vergonha?
Pressão?
Vontade de fugir do assunto?
Nada?
Talvez essa resposta seja mais interessante do que simplesmente perguntar:
“Por que eu não sei receber elogios?”
Experimente apenas dizer “obrigada”
Aqui entra o pequeno experimento que propus no vídeo.
Na próxima vez que alguém fizer um elogio sincero, tente não explicar.
Não diga:
“Foi sorte.”
“Nem ficou tão bom.”
“Essa roupa é velha.”
“Você está exagerando.”
Experimente apenas:
“Obrigada.”
E pare.
Pode parecer simples.
Mas talvez você perceba uma vontade quase automática de acrescentar alguma coisa depois.
Se isso acontecer, observe.
O objetivo do exercício não é obrigar você a acreditar imediatamente em tudo aquilo que ouviu.
É perceber o que acontece quando você não diminui automaticamente algo positivo que recebeu.
Talvez o desafio não seja aprender a gostar de elogios.
Talvez seja compreender por que algumas coisas boas sobre você são tão difíceis de sustentar.
Autoestima não é se achar incrível o tempo inteiro
Quando falamos em autoestima, às vezes parece que estamos falando sobre olhar no espelho e gostar de tudo.
Não é tão simples.
A maneira como nos percebemos envolve nossa história, experiências, relações, interpretações e crenças construídas ao longo do tempo.
Construir uma relação mais saudável consigo não significa ignorar limitações ou repetir frases positivas até acreditar nelas.
Também pode envolver aprender a olhar para si de maneira mais ampla:
reconhecer dificuldades sem transformar dificuldades em identidade;
reconhecer qualidades sem precisar diminuí-las;
receber uma crítica sem transformá-la em uma definição sobre quem você é;
e receber um elogio sem precisar devolvê-lo imediatamente.
E quando perceber esse padrão não é suficiente?
Às vezes, conseguimos identificar:
“Eu sei que faço isso.”
Mas ainda não compreendemos de onde aquilo vem ou por que é tão difícil agir de outra maneira.
A psicoterapia pode oferecer um espaço para explorar com mais profundidade a forma como você se percebe, as crenças que construiu sobre si e como elas aparecem nas suas relações e experiências atuais.
Não para ensinar você a pensar positivamente sobre tudo.
Mas para ampliar a compreensão sobre como você aprendeu a se enxergar, e quais outras formas de se relacionar consigo podem ser construídas.
Se você sente que gostaria de olhar para essas questões com acompanhamento profissional, estou à disposição para conversar sobre como funciona a psicoterapia.
Antes de ir...
Quero deixar um último exercício.
Pense em alguma qualidade que alguém costuma reconhecer em você.
Agora, em vez de responder:
“Nem é tudo isso...”
complete:
“Talvez exista em mim algo que eu ainda tenha dificuldade de reconhecer.”
E apenas observe o que essa frase provoca em você.
Isso fez sentido pra você?
Talvez seja um bom momento para conversarmos.
Uma conversa de 20 minutos, sem compromisso, pra entender se faz sentido começar a terapia.
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Escrito por Júlia Kulexar
Psicóloga clínica · CRP 06/228607
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